domingo, julho 30, 2017

Reforma da Previdência Uma Fábula


(Ary Alcantara)

Previdência é uma das realidades mais observadas na natureza.

Todos os seres vivos de uma forma ou de outra proveem.

Talvez uma das mais expressivas manifestações disto nos venha de Esopo em sua fábula, “A Cigarra e a Formiga”, recontada por Jean de La Fontaine e no Brasil, no contexto do Sítio do Pica-Pau Amarelo, pelo escritor Monteiro Lobato, um argumento mais afeito à realidade do país. (Fábulas. [1])

Neste conjunto vale duas visões que tem muito a ver com o assunto no qual se discute no Brasil.

No primeiro, se vende um produto que é a consciência de prover durante a vase produtiva, imaginando-se ter rendimentos “dignos” para deleitar a inatividade. Neste caso trata-se exclusivamente de uma mercadoria ofertada no mercado para atender esta realidade. Garantir um modelo de assegurar renda à inatividade através da formação de fundos previdenciários de poupança.

No outro, vale a interpretação de Monteiro Lobato muito bem-dita nas palavras da Boneca Emília “que não é boba nem nada” e interfere para não deixar que a formiga rabugenta maltrate a pobre cigarra.

Lobato assim se refere ao inseto pedinte:

"Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha (...)", pois era uma "pobre cigarra, em seu galhinho, manquitolando, com uma asa a arrastar, triste mendiga, a tossir", ao passo que a formiga assume um papel de algoz e "Não soube compreender a cigarra, com dureza a repeliu de sua porta" pois ela "era uma usurária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres".[6]
Conclui Lobato assim a história: "Resultado: a cigarra ali morreu; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?", desta forma valorizando os artistas, tais como os poetas, músicos e pintores — cigarras da vida real.[6]
Cabe a menina Narizinho, o papel de defender a formiga: "Esta fábula está errada! – gritou Narizinho. Vovó nos leu aquele livro do Maeterlinck sobre a vida das formigas – e lá a gente vê que as formigas são os únicos insetos caridosos que existem. Formiga má como essa nunca houve."[6][nota 1]

Os brasileiros ao invés de comprar a mercadoria securitária da poupança, acreditaram na fábula política expressa no sentimento solidário tão bem contado por Monteiro Lobato e como a Boneca Emília em sua entrevista com La Fontaine (Reinações de Narizinho), reescrevem a história:

“(...) Emília mandou que a cigarra batesse na porta outra vez. A cigarra obedeceu, batendo três toc-tocs. Veio a formiga espiar quem era. Dando com a mesma cigarra, disse-lhe um grande desaforo e já lhe ia batendo com a porta no nariz outra vez quando Emília a agarrou pela perna seca e a puxou para fora.

– Chegou tua vez, malvada! Há mil anos que a senhora me anda a dar com essa porcaria de porta no focinho das cigarras, mas chegou o dia. Quem vai levar porta no nariz és tu, sua cara de coruja seca!
O Sr. de La Fontaine teve de pedir para Emília parar, senão a formiga morreria e isso estragaria a sua fábula. “

A moral das histórias é a seguinte: assim como a cigarra não pode passar o verão cantando sem trabalhar, as formigas também não podem negar ajuda. Isso não é fazer bem ao semelhante.


Este é o caso brasileiro somos formigas e cigarras. O que precisamos e escolher o autor e sua versão da fábula.

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